sexta-feira, agosto 01, 2003

BLOGODAILON
1-08-03


Textos aleatórios para uma sexta feira
em que não consegui instalar um comment decente para esse
blog,




Tema 1: Encostos

A Igreja Universal se apropriou do termo da macumba e usa para disfarçar
o uso de termos como capeta ou nomear diretamente os orixás e entidades
das religiões afro-brasileiras. Enfim, cheguei à conclusão que encostos
existem, só que não é necessário metafísica para tal raciocínio. Basta
apenas ter um parente encostado, literalmente, em casa, atravancando
o quarto dentro deste "apertamento" que não há descarrego que dê jeito.
Quero o meu sabonete de arruda já !!!!!!!!!!!!!!!!!


Desencosta daí, mané !!!!!!!!

Tema 2: Sexualidade



a) Atividade e Passividade

O Junior de Sampa me passou um texto chamado "A Cicatriz dos Passivos",
escrito no comecinho dos anos 80 por Argus Mario Paholsky e que comenta
um livro de Michel Misse, que é hoje em dia é professor da UFRJ - onde
estudo- e que atualmente se dedica ao tema da violência. Nele ele fala,
entre outras coisas, de como o homossexual passivo, ou seja, o que é
penetrado, é igualado à mulher, ao "não ser homem", e obviamente o
"ativo" como símbolo do uso de poder, valorizado até. A vagina
e o ânus como símbolos de "perda" (perdeu o cabaço), dar (deu pra fulano)
enquanto o pênis é o símbolo de força e prestígio constituindo-se assim
um estigma para as mulheres e o homem que é penetrado.

Claro que a discussão vai além disso mas o que me leva a refletir sobre
tal fato é que passados 20 anos, as transformações ocorridas depois da
AIDS (independentemente da orientação sexual) essa idéia permanece.
Outro dia recebi por e-mail uma matéria do jornal O Dia que dizia o seguinte
"Está faltando homem até para homem". Lendo mais adiante fico sabendo
que a falta de "homem" significa que falta "ativos" nos relacionamentos.
Ou seja, ser homem significa "o que come, ativo" e consequentemente,
"penetra", ao passo que ser passivo significa a negação disso. Isto se
torna claro pelo uso que ouço para se referir quando alguém gosta de
ser penetrado, ou seja, "fulano é passiva". Isso mesmo o gênero se
flexiona no feminino o que lembra a igualdade que mencionei acima.

E com isso vai se reforçando o estigma e o desprestígio associados ao
homossexual "passivo". Lembremos que para muitos o fato de "comer" o cara
pode significar uma autorização de masculinidade, que valoriza "o que
pega tudo, inclusive homem", mas permanece "homem" pois não "deu o cu ".

É uma construção de identidade totalmente esquizo, na qual a pessoa é
definida pelo uso de determinados órgãos sexuais que igualam pênis = homem
, vagina =mulher e ânus = homossexual masculino. Uma estranha metonímia
na qual a parte vale pelo todo.

Lembro de uma moça que perguntou ao seu sobrinho homossexual: "você é
passivo? Mas na hora que você dá o seu pinto sobe, fica duro?" Diante
da afirmativa do sobrinho à pergunta, a mesma se assusta, como se ao
homossexual passivo o único órgão de prazer é o ânus.

Essa concepção esquizóide remonta ao começo do desenvolvimento psicossexual
anterior ao que Freud chama de narcisismo. Narcisismo, falando de maneira
bem rasa, é o investimento sexual feito no próprio eu, esse eu sendo total,
integral e diferenciado dos pais, diferenciação essa decorrente da ameaça
da castração. Antes disso o que se tem é o chamado "auto-erotismo", isto é
, o prazer é sentido em determinadas partes do corpo (como a boca na fase oral)
e a criança não se diferencia da mãe, ela se sente uma só com ela, e o
eu ainda não está formado e tampouco tem se a construção de um corpo
único e integral.

Bom, se a concepção de eu se dá após a percepção do corpo como algo
sexual como um todo, como pode se dá a sexualidade em apenas em determinadas
partes e a partir disso se definir a identidade de alguém? Ou seja,
alguém é "homem" a partir do uso do pênis? Claro que se analisarmos
outras dinâmicas em nossa sociedade a definição dos papéis de gênero
são muito mais complexas, pois alguém pode "deixar de ser homem" por outras
razões como perda do emprego, o fato da mulher sair com outro homem,
ser sustentado pela mulher e por ai vai...mas a questão atividade/passividade
talvez seja a mais "primordial" na definição dessa identidade, sem negar
os outros fatores psicossociais já mencionados.

Freud, no célebre "Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade"
falava que em termos de sexualidade não existe "masculino" e
"feminino" mas sim em "atividade" e "passividade". Claro
que em nossa civilização conceituamos que a "atividade" é igualada
às ações esperadas de um homem e a "passividade" de uma mulher, mesmo
anos depois do início da revolução sexual iniciada nos anos 60.

E da mesma forma que é errôneo pensar nisso, cabe também outras observações:
1) nem todos que usam o pênis são obrigatoriamente homens e/ou "ativos"
2) a sexualidade se dá além da penetração e o prazer não se resume à
relação pênis- vagina ou pênis- ânus pois o corpo é integralmente sexualizado, e
de acordo com as características de cada um, certas áreas serão valorizadas
, certos desejos, fetiches e fantasias. Afinal " a sexualidade é perversa
e polimorfa", isto é, perversa pois ela foge do objetivo puro da reprodução
e polimorfa pois ela tem diferentes objetos de desejo e diferentes objetivos.
Esse mesmo conceito pode ser estendido à idéia de "virgindade" que também
é calcada no uso do pênis e da vagina na penetração somente, negando às
diversas formas de prazer, o que torna esse conceito questionável, e uma
manifestação clara de uma idéia patriarcal existente em nossa sociedade.

Desculpem-me pois esse meu texto pode não parecer muito claro, mas
se trata somente da seleção de algumas idéias e reflexões que estavam
fervilhando na minha cabeça. Mas ao menos queria deixar claro que sexualidade
é um conceito muito amplo e ao mesmo tempo complexo, seja para homens ou
para mulheres- já que se divulga a falsa idéia da sexualidade feminina como
a "mais complexa", o que torna a discussão pobre- e que em nossa sociedade
sexualidade e poder estão fortemente ligados e assumindo diversas representações
no tempo e no espaço, falarei mais sobre isso a seguir.


Tô tirando onda de tio Zig !!!!!!!!!!!!!

B) A Essencialidade da Homossexualidade



É muito comum ouvirmos que a homossexualidade "sempre existiu", algo
que a essencializa como a mesma independentemente do contexto
histórico- cultural colocado.

O Exemplo mais clássico é "na Grécia Antiga, homossexualidade era normal".
Cabe pensar que na sociedade das pólis gregas da antigüidade o poder era
exercido na mão de poucos: homens componentes da aristocracia, uma minoria.
Mulheres, escravos e estrangeiros eram restritos e fortemente oprimidos
naquela sociedade.

Os mesmos aristocratas tinham seus efebos, meninos com os quais eles
tinham relações sexuais e esses eram penetrados - daí
vale rever o texto anterior que mencionei da questão de ser "ativo"
e poder. Ou seja, o que estamos chamando de homossexualidade grega,
na realidade é o que hoje chamaríamos de pedofilia, algo que é condenável
e qualificado como crime.

Uma famosa antropóloga, em suas pesquisas no Pacífico Sul, verificou
uma tribo que tinha o seguinte rito de passagem: o menino quando
nasce é criado e tem contato única e exclusivamente com as mulheres
de sua tribo. Quando chega a puberdade, esses meninos já crescidos
vão para a floresta, afastada da aldeia, junto com os homens e meninos
mais velhos. Lá eles são submetidos a uma série de rituais para a passagem
da infância para se tornarem "homens". Entre esses rituais, os meninos são
obrigados a fazerem sexo oral nos rapazes mais velhos e beber o sêmen destes
como uma forma de "purificar" o corpo dos líquidos "femininos" como o
leite materno. Após isso os agora homens voltam para aldeia e se casam
(com mulheres) e constituem suas famílias. Ou seja, cabe nesse contexto
a palavra homossexualidade quando o sexo oral é usado como um rito?

Enfim, o fato de existir sexo entre pessoas do mesmo sexo deve ser
pensado de acordo com o tempo e espaço onde isto ocorre. Hoje em dia
quando falamos de homossexualidade estamos falando da atração erótico- afetiva
por pessoas do mesmo sexo- sejam homens ou mulheres- , em formação de
relacionamentos (afetivos ou não)e hoje até discutimos em diversos países
do mundo sobre a criação de leis anti- discriminatórias e outras, como a
Parceria Civil Registrada (PCR) que garante aos casais de pessoas do
mesmo sexo os direitos de casais heterossexuais.

Por isso é fundamental não construir uma concepção essencialista da
homossexualidade, ou da sexualidade de um modo geral, pois a dinâmica
da mesma se dá de diversas maneiras em diferentes culturas e/ou
momentos da história.

C) Estupro e Abuso Sexual

Os advogados não me deixam mentir mas o crime de estupro nesse país
só é considerado quando há a penetração pênis- vagina. Ou seja, se
alguém, seja homem ou mulher, for forçado a ter sexo oral, ter o
ânus penetrado, ou a vagina penetrada por outras coisas não
é considerado "abuso sexual", embora os danos psíquicos e sociais
sejam os mesmos, independentemente da forma do ato praticado.

Essa definição de estupro lembra o que mencionei no item a, isto é,
a definição da sexualidade como a penetração do pênis na vagina
e do uso de poder decorrente daí. As outras formas são negadas, pois
aí não há o risco da reprodução, e como sabemos, mesmo 100 anos depois
da psicanálise e das diversas outras transformações ocorridas no século
que se passou existem coisas que permanecem na lei, o que a torna
anacrônica e ao mesmo tempo é sinal de que certas estruturas do poder
patriarcal e falocêntrico ainda permanecem ainda hoje.

Eu gostaria hoje de colocar as minhas pílulas, mas esses textos
tomaram muito da "máquina" (como um antigo amigo costuma me definir
quando estou pensando) que trabalhou demais hoje. Esse blog com
posts bissextos ainda terá as famosas pílulas , mas deixarei para
outro dia. E perdoem-me o "psicanalistês" e essa chuva de conceitos.
Já me disseram que eu tenho o hábito de repetir as coisas que aprendo,
quando na realidade, as coisas que aprendo, quando estão de acordo
com as coisas que acredito, devem ser transformadas na produção de
um novo conhecimento. Me sentiria mal em ser um mero papagaio ou uma
fita k7 com as aulas que tive.