sexta-feira, março 21, 2003

Momento de Sono e João Cabral de Melo Neto

Hoje queria postar umas coisas interessantes neste blog mas o sono não deixa. Daí pensei em "Noturno" do João Cabral de Melo Neto, poema da sua obra de estréia "Pedra do Sono" (1942), título que para alguns autores mistura uma porção surrealista (sono) com a crueza de sua poesia ( pedra). Mas como o trabalho do "engenheiro" João Cabral recupera , de certa forma, o "ourives" invejado por Olavo Bilac, creio que a poesia dele não é crua, pois ela é devidamente trabalhada.

Pensando melhor, o ourives é artesanal e se perde em detalhes, pela natureza de seu trabalho obcecado pela beleza. O engenheiro preza pela exatidão. Assim se faz JCMN.

E muita gente puxa o saco do Carlos Drummond de Andrade. Mas JCMN dá de 1000 no mineiro , pois a obra é mais consistente e não há bobagens como aquele "Stop" (a vida parou?/ou foi o automóvel?), ou aqueles rompantes no clássico Poema de Sete Faces, em que ele reclama da vida e no final tenta fazer um "carão" colocando toda a culpa no conhaque pelo sentimentalismo ébrio dele.

Vamos ao que interessa:

Noturno

O mar soprava sinos
os sinos secavam as flores
as flores eram cabeças de santos.

Minha memória cheia de palavras
meus pensamentos procurando fantasmas
meus pesadelos atrasados de muitas noites.

De madrugada, meus pensamentos soltos
voaram como telegramas
e nas janelas acesas toda a noite
o retrato da morta
fez esforços desesperados para fugir.

Et c'est fini !!!!!!!!!!!!!!!!!