Psikovela
-um detalhe da alma e teledramaturgia-
Resolvi estrear esta sessão como forma de mostrar a "intelligentzia" tupiniquim que se amarra em dizer que não assiste TV e quem assiste novela é a empregada, o motorista e o porteiro. Adorável classe mérdia e suas vertentes...Enfim, para quem curte os desdobramentos da intricada alma humana, idependentemente de gostar ou não de telenovela. Hoje estréio comentando sobre Alicinha de "O Clone" e o maniqueísmo nosse de cada dia.
Psikovela I
-Maniqueísmos-
No começo da segunda fase da novela "O Clone" de Glória Perez o jornalista Artur Xéxeo levantou uma questão: afinal por que Alicinha é tão má?
De fato a pergunta é intrigante. Nesse estilo de dramaturgia, tal como nos contos de fada e nos melhores (e piores) romances românticos o vilão tem sempre uma "razão" de ser. Há uma causa para certos comportamentos dos vilões. Tomemos como exemplo a madrasta da Branca de Neve: a perseguição da madrasta a Branca de Neve se deve ao fato dela não ser a mulher mais bela, mas sim sua enteada. Talvez isso ilustre dois ótimos exemplos do nosso ciclo vital: a madrasta que envelhece e a menina que se torna mulher, revelando assim a sua beleza, tendo o espelho como pano de fundo. Mas esse é assunto para outra discussões.
Poderia aqui continuar com inúmeros exemplos tal como a bruxa Maléfica que joga uma praga em Aurora pelo simples fato de não ser convidada para o evento no palácio do rei, pai de Aurora, no nascimento dela. Essa é a trama inicial de "A Bela Adormecida". E que tal pensarmos em Medéia que mata os próprios filhos que teve com Jasão pelo fato de ser abandonada por ele, como forma de atingí-lo.
Voltemos à Alicinha, de Crisitiana Oliveira. Como sabemos , além de uma "causa" para as vilanias de uma personagem toda telenovela se baseia em um maniqueísmo fundamental: mocinho(a)s e vilões. E o que Alicinha aprontou tanto nessa novela que a qualifica como vilã? Pensemos:
1) Tentou inicialmente chantagear o marido da tia pois descobriria o segredo sobre o clone. Mas essa idéia não foi levada adiante pela autora;
2) Seduz - claro, não há vilã sem um ingrediente sexual, especialmente quando este é do sexo feminino - um dos funcionários da clínica do tio (Escobar) deixando a esposa deste (Clarice) inconformada. Isso ocorre quase no mesmo momento em que o filho de Clarice (Nando) começa a se envolver com drogas;
3) Seduz ainda o namorado de Ivete além de fazer uma série de intrigas que tiram o emprego desta;
4) Inventa uma gravidez para que Escobar passe um apartamento no nome dela e não para Nando por medo de uma represália de Clarice (o mito de Medéia vive). Depois do falso aborto, Alicinha diz que vai manter o apartamento no nome dela;
Paremos nestas 4 ações de Alicinha, pois a lista é grande. Se nos determos no velho olhar maniqueísta é fácil perceber: Alicinha é vilã. Com essas ações ela conseguiu desestruturar a vida de uma série de pessoas.
Com um olhar mais atento verificamos que esses personagens "prejudicados" não podem ser colocados como "mocinhos" justamente quando se relacionam com Alicinha. No caso mais específico de Escobar, ele com um casamento de mais de 20 anos coloca tudo a perder em nome de uma paixão. Antes mesmo do aparecimento de Alicinha a família de Escobar não é a que vemos em propagandas: Clarice trabalha na empresa de Leonidas e à noite ao chegar em casa tem que "cumprir com suas tarefas domésticas" e cuidando dos dois homens da família, em uma típica ação da chamada "jornada dupla de trabalho". Além disso Escobar é omisso na educação do filho submetendo Clarice a uma sobrecarga.
Assim o suposto mocinho "seduzido" não era tão mocinho assim. O que a nossa "vilã" faz é retirar o véu que esconde essas personagens. Com isso caí a dicotomia "bem X mal". As ações deste personagem estão muito distantes das que esperamos de um "mocinho".
Com isso também que Alicinha, por vilã que ainda seja, é do nosso tempo. Uma vilã sem causa, uma vilã que apenas vem para desvelar o que há de podre nos candidatos a mocinhos da novela. Muito se fala que no mundo pós-Guerra fria não sabemos, ao contrário do que ocorria no embate capitalismo X socialismo, que são os vilões ou bandidos. Tá certo que depois dos atentados de 11 de setembro, o fundamentalismo islâmico e a "sociedade Ocidental" (mas apenas um fragmento desta representada por um pensamento reacionário) tentam colocar um novo conflito. Nesse sentido, Bush e Bin Laden são seres anacrônicos. Entretanto, observarndo bem não há diferenças significantes entre os moralismos da direita "cristã" e do fundamentalismo islâmico. Alicinha estava no comando daquele avião. Definitivamente Newton, causa e efeito, não tem mais espaço no mundo que já clona, nem que seja, na telenovela.
-um detalhe da alma e teledramaturgia-
Resolvi estrear esta sessão como forma de mostrar a "intelligentzia" tupiniquim que se amarra em dizer que não assiste TV e quem assiste novela é a empregada, o motorista e o porteiro. Adorável classe mérdia e suas vertentes...Enfim, para quem curte os desdobramentos da intricada alma humana, idependentemente de gostar ou não de telenovela. Hoje estréio comentando sobre Alicinha de "O Clone" e o maniqueísmo nosse de cada dia.
Psikovela I
-Maniqueísmos-
No começo da segunda fase da novela "O Clone" de Glória Perez o jornalista Artur Xéxeo levantou uma questão: afinal por que Alicinha é tão má?
De fato a pergunta é intrigante. Nesse estilo de dramaturgia, tal como nos contos de fada e nos melhores (e piores) romances românticos o vilão tem sempre uma "razão" de ser. Há uma causa para certos comportamentos dos vilões. Tomemos como exemplo a madrasta da Branca de Neve: a perseguição da madrasta a Branca de Neve se deve ao fato dela não ser a mulher mais bela, mas sim sua enteada. Talvez isso ilustre dois ótimos exemplos do nosso ciclo vital: a madrasta que envelhece e a menina que se torna mulher, revelando assim a sua beleza, tendo o espelho como pano de fundo. Mas esse é assunto para outra discussões.
Poderia aqui continuar com inúmeros exemplos tal como a bruxa Maléfica que joga uma praga em Aurora pelo simples fato de não ser convidada para o evento no palácio do rei, pai de Aurora, no nascimento dela. Essa é a trama inicial de "A Bela Adormecida". E que tal pensarmos em Medéia que mata os próprios filhos que teve com Jasão pelo fato de ser abandonada por ele, como forma de atingí-lo.
Voltemos à Alicinha, de Crisitiana Oliveira. Como sabemos , além de uma "causa" para as vilanias de uma personagem toda telenovela se baseia em um maniqueísmo fundamental: mocinho(a)s e vilões. E o que Alicinha aprontou tanto nessa novela que a qualifica como vilã? Pensemos:
1) Tentou inicialmente chantagear o marido da tia pois descobriria o segredo sobre o clone. Mas essa idéia não foi levada adiante pela autora;
2) Seduz - claro, não há vilã sem um ingrediente sexual, especialmente quando este é do sexo feminino - um dos funcionários da clínica do tio (Escobar) deixando a esposa deste (Clarice) inconformada. Isso ocorre quase no mesmo momento em que o filho de Clarice (Nando) começa a se envolver com drogas;
3) Seduz ainda o namorado de Ivete além de fazer uma série de intrigas que tiram o emprego desta;
4) Inventa uma gravidez para que Escobar passe um apartamento no nome dela e não para Nando por medo de uma represália de Clarice (o mito de Medéia vive). Depois do falso aborto, Alicinha diz que vai manter o apartamento no nome dela;
Paremos nestas 4 ações de Alicinha, pois a lista é grande. Se nos determos no velho olhar maniqueísta é fácil perceber: Alicinha é vilã. Com essas ações ela conseguiu desestruturar a vida de uma série de pessoas.
Com um olhar mais atento verificamos que esses personagens "prejudicados" não podem ser colocados como "mocinhos" justamente quando se relacionam com Alicinha. No caso mais específico de Escobar, ele com um casamento de mais de 20 anos coloca tudo a perder em nome de uma paixão. Antes mesmo do aparecimento de Alicinha a família de Escobar não é a que vemos em propagandas: Clarice trabalha na empresa de Leonidas e à noite ao chegar em casa tem que "cumprir com suas tarefas domésticas" e cuidando dos dois homens da família, em uma típica ação da chamada "jornada dupla de trabalho". Além disso Escobar é omisso na educação do filho submetendo Clarice a uma sobrecarga.
Assim o suposto mocinho "seduzido" não era tão mocinho assim. O que a nossa "vilã" faz é retirar o véu que esconde essas personagens. Com isso caí a dicotomia "bem X mal". As ações deste personagem estão muito distantes das que esperamos de um "mocinho".
Com isso também que Alicinha, por vilã que ainda seja, é do nosso tempo. Uma vilã sem causa, uma vilã que apenas vem para desvelar o que há de podre nos candidatos a mocinhos da novela. Muito se fala que no mundo pós-Guerra fria não sabemos, ao contrário do que ocorria no embate capitalismo X socialismo, que são os vilões ou bandidos. Tá certo que depois dos atentados de 11 de setembro, o fundamentalismo islâmico e a "sociedade Ocidental" (mas apenas um fragmento desta representada por um pensamento reacionário) tentam colocar um novo conflito. Nesse sentido, Bush e Bin Laden são seres anacrônicos. Entretanto, observarndo bem não há diferenças significantes entre os moralismos da direita "cristã" e do fundamentalismo islâmico. Alicinha estava no comando daquele avião. Definitivamente Newton, causa e efeito, não tem mais espaço no mundo que já clona, nem que seja, na telenovela.

1 Comments:
Muito bom. Apenas no parágrafo
"Paremos nestas 4 ações de Alicinha, pois a lista é grande. Se nos determos no velho olhar maniqueísta é fácil perceber: Alicinha é vilã. Com essas ações ela conseguiu desestruturar a vida de uma série de pessoas."
altere "determos" para "detivermos". Foi só um cochilo.
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